O vereador Mateus Batista (União Brasil), de Joinville (SC), voltou a provocar forte repercussão nacional ao apresentar um projeto de lei que pretende restringir a migração de pessoas vindas do Norte e Nordeste para o município. Durante sessão da Câmara, na última segunda-feira (25), o parlamentar afirmou que o “Estado do Pará é um lixo”, declaração que gerou repúdio imediato de parlamentares, lideranças políticas e entidades civis.
A proposta prevê que novos moradores comprovem residência em até 14 dias após a mudança, sob pena de não poderem permanecer “legalmente” na cidade. Para justificar, Batista disse se inspirar em um “modelo alemão” e argumentou que Santa Catarina estaria “pagando a conta duas vezes”: ao contribuir para a arrecadação federal e ao absorver migrantes de estados que ele chamou de “mal administrados”. Nas redes sociais, reforçou: “Santa Catarina vai virar um grande favelão”.
No plenário, citou dados do Censo para sustentar sua tese e atacou diretamente o Pará: “Belém tem 57% da sua população favelizada. Estou falando da forma como o Estado é governado. Esse fluxo migratório está sendo pressionado novamente por causa de estados mal geridos no Norte e Nordeste. O Estado do Pará é um lixo”.
Projeto é considerado inconstitucional
Juristas afirmam que a proposta fere frontalmente a Constituição Federal. O artigo 5º assegura a todo cidadão o direito de ir, vir e permanecer em qualquer parte do território nacional, enquanto o artigo 3º determina como dever da República promover o bem de todos sem discriminação. Além disso, o artigo 19 proíbe União, estados e municípios de criar distinções entre cidadãos, sendo a competência sobre liberdades civis exclusiva da União.
Especialistas destacam ainda que o argumento do “modelo alemão” é equivocado. O Anmeldung, registro obrigatório de endereço na Alemanha, tem caráter apenas administrativo e serve para organizar serviços públicos, sem qualquer dispositivo que limite a permanência de cidadãos em determinada cidade.
Repercussão política
A vereadora Vanessa da Rosa (PT) classificou o discurso como “criminosa” e “vergonhosa para o parlamento”, lembrando que Joinville nasceu da soma de diferentes fluxos migratórios, desde europeus até brasileiros vindos de várias regiões.
De Belém, o vereador Pablo Farah (MDB) respondeu em vídeo: “Vai cuidar da saúde pública, vai cuidar da segurança. Tu és preconceituoso, sim, tu és racista e xenofóbico”.
Nas redes sociais, milhares de internautas repudiaram as falas de Batista, acusando-o de reforçar preconceitos regionais.
Possível enquadramento criminal
A conduta do vereador pode ser enquadrada na Lei 7.716/1989, que criminaliza a discriminação por origem ou procedência nacional. Após atualização recente, a injúria racial coletiva passou a ser equiparada ao crime de racismo, imprescritível e sujeito a penas mais severas.
Não é a primeira vez que Batista causa polêmica sobre o tema. Em outras ocasiões, já havia afirmado que “Santa Catarina pode virar um grande favelão” caso não haja controle da migração interna, mantendo um discurso de ataques constantes a pessoas vindas do Norte e Nordeste.
Foto: Divulgação – Em frente da delegacia
